Blog da Ascomjip


VIVER EM IPANEMA – uma história de amor ao nosso bairro
Outubro 16, 2007, 10:59 pm
Arquivado em: Uncategorized

AOS ANTIGOS E NOVOS MORADORES DE IPANEMA E A SEUS FILHOS

     Há trinta e um anos atrás, quando ainda nem pensava em ter o meu filho André, vim morar em Ipanema. Minha intenção, na época, que penso ser ainda a de vocês, era proporcionar aos meus filhos Eduardo e Zuleica uma infância livre da poluição sonora, visual e do ar que Porto Alegre, que estava se tornando uma grande metrópole, já começava a apresentar. Residindo em um bairro afastado do centro, na certa, a qualidade de vida dos meus filhos e seus parâmetros de relacionamento humano e ambiental seriam influenciados pela convivência bucólica e calma deste pedaço do Eden que AINDA é o bairro Ipanema.

                                                               

     No decorrer da infância e em parte de suas adolescências, meus três filhos puderam desfrutar livremente com seus amigos e vizinhos de um ir e vir pelo bairro que hoje, adultos, recordam com muito carinho entre si e com aqueles amigos que, como eles, tiveram o privilégio de morar e crescer em Ipanema.

     Residindo e trabalhando neste bairro construí, assim como os meus filhos, sólidas e amorosas amizades. Ao longo dessa convivência comunitária (mesma escola, igreja, padaria, açougue, sapateiro, mercadinhos, clubes etc.) os filhos de colegas, vizinhas, amigas e conhecidas do bairro formavam o que, ainda hoje, chamamos “a grande família de Ipanema”.

     Recordo-me que a chegada da primavera era uma festa! Além da criançada poder ficar na rua até mais tarde, logo, logo chegariam os banhos de chuva, de mangueira e de piscina, bem como o cheiro das flores, o canto dos pássaros e o esplendoroso pôr-do-sol do Lago Guaíba tão característico   da Zona Sul  e que tanto embeleza a cidade de Porto Alegre.

     Nequela época, Ipanema, como toda a Zona Sul ainda era considerada uma área de lazer e rural. Porém, os moradores dessa região  ainda se lembravam da construção do emissário de esgotos ( que ficou conhecido pelo nome de tubão) no início da década de setenta. Aquele episódio foi o  alerta definitivo para a impossibilidade dos banhos no “rio Guaíba”. Tal fato acabou afetando a Praia de Ipanema, bem como veio a indicar que a qualidade da água desse importante recurso hídrico, para consumo humano, já não era mais a mesma. 

Outro fator a ser levado em conta, que afetou a qualidade de vida da Zona Sul , e, principalmente ,de Ipanema, foi a inauguração da Borregard em 1972. Este fato veio a modificar a boa imagem da Zona/Bairro, em razão  do cheiro fétido que nos chegava da outra margem do rio trazido pelos ventos, demonstrando que eles não mais sopravam com o mesmo ar puro de antigamente…  

No início da década de oitenta os moradores começaram a perceber a transformação deste canto da cidade em ternos urbanos e, naturalmente das suas vidas, já que o crescimento da capital para a Zona Sul era inevitável. O que nos restou? Lutar pela preservação de partes fundamentais do ambiente natural, responsáveis pela beleza paisagística e pela manutenção da qualidade de vida que ainda estavam ao nosso alcance. E uma dessas lutas foi o MORRO DO OSSO.

     Moradores da Tristeza, Vila Conceição, Sétimo Céu, Cavalhada, Ipanema e Guarujá uniram-se em uma grande cruzada pela preservação deste morro, alvo da especulação imobiliária, que, assim como o Morro do Sabiá e do Espírito Santo, entre outros, estão intimamente relacionados à qualidade de vida desta parte de Porto Alegre. Passeatas com alunos dos bairros citados foram realizadas; caminhadas escolares e comunitárias pelo morro aconteceram; as associações deste bairro e dos bairros do entorno, dando total apoio e participação; ONGs como a AGAPAN se fizeram presentes; moradores conhecidos como VASCO PRADO, ZORÁVIA BETTIOL, CAIO LUSTOSA e outros tantos  não tão conhecidos mas extremamente engajados, foram determinantes para o êxito do movimento. Com freqüência jornais, rádios e televisões noticiavam a campanha e os eventos, contribuindo de maneira expressiva para o sucesso dos mesmos.

O MORRO DO OSSO , hoje, é um PARQUE NATURAL. Portanto foi devido à conscientização ecológica dos moradores da Zona Sul e da sociedade civil organizada que, depois de grandes lutas, conseguiu-se fazer com que os Órgãos Públicos reconhecessem, acatassem e regulamentassem parte deste MORRO como de Preservação Permanente. Desse modo sua FAUNA e sua FLORA ficaram protegidas, bem como ficou mantida sua beleza natural indiscutível, pois do seu cume podemos vislumbrar os quatro cantos da cidade, bem como ter uma visão sem igual do Lago Guaíba.

               A Zona Sul está mudando… Ipanema também…

               De oito anos para cá, temos presenciado uma avassaladora onda de construções em Ipanema e arredores, com o advento dos condomínios horizontais e com a disseminação dos grandes loteamentos onde áreas de mata nativa encontram seu extermínio ( ao longo da Estrada da Serraria, Av. Juca batista e Rua Edgar Pires de Castro, entre outros) e conseqüentemente o desaparecimento do verde da Zona Sul.

             O primeiro grande impacto referente a loteamentos, foi o Loteamento Ipanema, ao lado do Clube do Professor Gaúcho ( sub judice desde agosto de 2000). Naquele local, o Morro Espírito Santo encontra, no seu sopé, uma densa mata onde existem remanescentes de Mata Atlântica. O Arroio que leva o mesmo nome do morro, corre lentamente serpenteando essa mata que é a última área extremamente arborizada da Orla, desde a Déa Couffal até a Serraria. A Fauna e a Flora daquele local é riquíssima, sendo que esses 13ha de Mata Atlântica e nativa contribuem, definitivamente, para a estabilidade do microclima de Ipanema.

             O projeto apresentado à comunidade na primeira semana de janeiro de 2000 ( período em que não tem quase ninguém na cidade), previa nada menos do que dezesseis (16) prédios de dez (10) andares, trinta e nove (39) residências unifamiliares e dois (2) mini shoppings. Deixo para vocês fazerem o somatório dos impactos em todos os níveis que esse empreendimento vai causar para Ipanema, para a Zona Sul, bem como para a qualidade de vida da cidade como um todo.  Ressalto, ainda, que a infra-estrutura do bairro, não encontra suporte dado ao colossal tamanho deste empreendimento.

            Se este mega-projeto ainda não saiu, foi graças a mobilização das ONGs UNIÃO PELA VIDA e AGAPAN, que juntamente com Professores Especialistas da UFRGS,  e com a participação da comunidade, analisaram o RIA do referido loteamento, nele encontrando fundamentação suficiente para levar o caso ao Ministério Público, onde a Dra Ana Maria Marchesan, com a sua competência e sensibilidade social e ambiental,  instaurou um Inquérito Civil Público.

           O JORNALECÃO, nosso conhecido jornal de bairro, foi incansável em informar os moradores dos desdobramentos das ações. Na época tivemos espaços no Correio do Povo, no Jornal do Comércio, Jornal Já, TVE, TV Bandeirantes, emissoras de rádio, fizemos um abaixo-assinado na Praia de Ipanema, entre outros lugares, que foi entregue ao então Prefeito Raul Pont. Organizamos caminhadas na beira da praia com entrega de panfletos e manifestações em frente da mata com faixas e cartazes.

           Aos antigos e atuais moradores de Ipanema, reafirmo meu desejo de que continuem  ouvindo os pássaros que cantam numa sinfonia perfeita ao alvorecer e ao entardecer; que à noite os grilos, os sapos e as pererecas embalem seus sonhos e os dos seus filhos, que sintam o perfume das flores nativas, a sombra das árvores e o barulho delas quando tocadas pelo vento; o cheiro de mato e o cheiro da chuva…   A VIDA!

  Todavia, tenho esperança que a sensibilidade de que nos dotou o CRIADOR não seja definitivamente banida dos corações humanos. E que o domínio cruel sobre a NATUREZA não continue a ser o caminho mais fácil para que os seres humanos atinjam seus objetivos imediatistas de lucro fácil e desenfreado, crucificando para sempre o direito desta e das futuras gerações em desfrutar as maravilhas do nosso PLANETA, ainda que ele esteja, há tempos, pedindo socorro e continue, heroicamente resistindo a sua devastação definitiva.

Luto e almejo para vocês e para os meus futuros netos, o mesmo que um dia desejei para os meus filhos…

 PARTICIPAR DA VIDA DO BAIRRO E DA CIDADE PARA PRESERVÁ-LOS É UMA OPÇÃO NOSSA!   

Um fraterno, ecológico e carinhoso abraço,

Sandra,

Moradora do Jardim Isabel – Ipanema;

Vice-Presidenta da AGAPAN; e,

Delegada da Região de Planejamento 6, pela ASCOMJIP – Ipanema.


1 Comentário até o momento
Deixe um comentário

Fiquei impressionado com a clareza das colocações da Dna. Sandra. O lamentável, é que poucas pessoas conseguem entender que, quando se trata do BEM COMUM, a intensidade do clamor, deve ser arregimentada por todos que desfrutam do que é qualitativo e, Ipanema tem e sempre teve tudo que a natureza proporciona para o Bem viver (diferente do bem morar). Como morador do Bairro desde 1955, quando tinha 12 anos, lamento que não tivemos outras pessoas, com o seu cenário positivista, desde àquela época. Ubirajara

Comment por ubirajara moreira




Deixe um comentário
Linhas e parágrafos quebram automaticamente, endereços de email não serão mostrados, HTML permitido: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>